23 / 11 / 2017

Carta a Og Pozzoli (*1930, Itaboraí-RJ / +2017, São Paulo)

 

Velho amigo, sei que não me tomará por insensível a esta altura dos fatos, mas seu passamento me trouxe a sensação de alívio, dividida com seus amigos. Seus últimos tempos por aqui não lhe foram fáceis, nem tranquilos. O Fábio Amorim, meu editor na Gazeta de Alagoas, ligou-lhe ao seu aniversário e me sugeriu não chamá-lo: você estava hospitalizado. Fernando Siqueira, mesma função na Tribuna do Norte, foi visitá-lo no hospital e fez-me cenário pouco claro. Entendi: você estava aquecendo o velho motor para a passagem. Cartas a amigos idos usualmente têm acentos de perdas e lamúrias pelo que não foi feito. Não é o caso e peço que entenda-a como ode a uma personalidade de ações indeléveis. Sei claramente, neste país sem memória e de pululantes blogs nos quais o mundo se iniciou à data de nascimento de seus editores, poucos se lembrarão, mas você foi o remanescente do trio paulistano implantador do antigomobilismo no Brasil. Junto com Roberto Lee e Eduardo Matarazzo, mostraram que o ato de colecionar automóveis, podia ser uma atividade feita por agentes históricos culturais, longe do rótulo de “riquinho ocioso”. Juntaram outros sonhadores, como o Júlio Christiano no Rio de Janeiro, o Pacífico Mascarenhas na mineira BH, para espraiar a ideia. Em meados dos anos ´60 auxiliaram criar o primeiro dos “Veteran Car Club”, no Rio de Janeiro e, a seguir em São Paulo. Este, moldado com base na experiência internacional, foi a semente geradora da disseminação de tantos clubes assemelhados até na razão social. Fluminense de Itaboraí, criado em Natal(RN), de nome peculiar, chegou em parto complicado. Seu pai fazia palavras cruzadas e não conseguiu fechá-las: faltava uma questão – Rei de Bazan, duas letras. Nascido, foi premiado com a descoberta… Com tal início você foi único no colecionar, na opção de mudar-se da Paulistânia para uma grande chácara na periferia, com toda a enorme logística envolvida, pelo olhar profissional aplicado em sua bem sucedida vida de empreendedor. Distante, criou estrutura para ter as restaurações em domicílio, abrigando os variados prestadores de serviço e de manutenção constante. Sua visão de preservar discrepava do inicialmente praticado, focando nos veículos especiais, de relevo, pouca produção, optando pelos carros mais comuns, em especial os norte-americanos, então muito disponíveis. Você antevia que eles logo desapareceriam, trocados pelos novos produtos da então nascente indústria automobilística nacional.

Maú, a base e Og, o realizador (Foto: Teresa Gago)

Maú, a base e Og, o realizador (Foto: Teresa Gago)

Macio de convívio, modesto como enciclopédia de conhecimentos, em especial os produzidos nos EUA, garimpador de veículos e de sua história, você foi o grande avalista de seriedade às atividades do antigomobilismo no Brasil. Antes de conhecê-lo, já o admirava: ao fim da década de ´60 você e o Roberto Lee conseguiram um ato federal proibindo a exportação de veículos antigos para preservar o acervo nacional. Fosse válida atualmente, impediria o atual dispersar da frota antiga brasileira… Por sua densidade no meio, em 1985, quando organizei o rotulado como rematada maluquice, e na prática a pioneira longa viagem em carros antigos (no caso em Fords A entre São Paulo e Brasília), fui pedir sua presença, aval de importância e seriedade. Nesta viagem, já em Brasília, entregamos aos Ministros dos Transportes e da Justiça o pedido de criação da figura do veículo antigo no Código de Trânsito, o hoje dito ´Placa Preta´. Criávamos ali, todos os 100 participantes, o Turismo Antigomobilístico, pois até então os antigos na estrada eram apreendidos por falta de equipamentos tornados obrigatórios posteriormente à produção. Uma loucura jurídica, mas era o que se fazia. Logo em seguida, com a crise do Veteran Car Club SP, para evitar desagregação do movimento, você criou a SPAA (Sociedade Paulista de Automóveis Antigos), reunindo os colecionadores da capital, mantendo-o vivo. Realizou a viagem de São Paulo a Natal, enorme quilometragem, fazendo efeito-demonstração de factibilidade dos clubes de veículos antigos, disseminando a atividade por infindável sequência de cidades. Quando propus a criação da Federação Brasileira de Veículos Antigos e me indicaram presidente, condicionei-a a você aceitar ser o Vice e o sucessor. Tenho certeza, seu nome e experiência lastrearam a credibilidade aos antigomobilistas espalhados pelo Brasil. Mesma razão, sua presença ajudou a formar a sólida base para o Encontro Nacional, realizado em Araxá, se tornasse a grande referência nacional. Faço um salto para uma reverência pessoal. Há algum tempo, após 12 anos de tratativas, a Ford atendeu a solicitação minha para cancelar o contrato de comodato com o museu implantado pelo Roberto Lee em Caçapava(SP), cedendo os veículos, incluindo um Overland 1906 e o único exemplar do Willys Capeta ao Museu Nacional do Automóvel, em Brasília. O Lee se fora, o Museu estava vilipendiado, peças e veículos desaparecendo, e cinco carros da Ford haviam sido saqueados. Cautela de advogado, para a retirada e recebimento, preparei laudos descritivos, nele constando estado dos veículos e ausência de componentes. E pedi sua presença para co-assinar os laudos. Que manhã, Alah! Aberto o prédio, o ar era impregnado de mofo, umidade, materiais em decomposição, fezes de pássaros e de roedores, água empoçada. Os automóveis, degradados, pilhados, e deles muitos você participou da localização, restauração, revivificação para serem entronizados no Museu. Andávamos com dificuldade e o ar nos era pesado física e emocionalmente pelas lembranças e desprezo deste país e suas pretensas autoridades às tentativas particulares em formar acervo cultural para a posteridade. Eu olhava os carros sendo retirados, conferia os itens para entregar os laudos ao advogado da Ford, e me surpreendi ao procurá-lo, dando com você encostado num pilar, num choro silencioso e sentido. Foi para mim a maior declaração de amor à causa, de respeito à ideia que você ajudou a apresentar, praticar, manter viva, ante o retrato do desrespeito do Estado à Cultura. Entendi também, você, quase octogenário, me distinguia muito, dirigindo quase 300 km para vir me ajudar. E sabia que você estava nitidamente preocupado com o futuro do seu acervo, pois a Secretaria de Cultura em São Paulo inflava esperanças de perpetuar sua coleção, adquirindo-a para implantar um merecido e óbvio Museu do Automóvel em São Paulo. Depois condensou a proposta em um valor: R$ 0,00. Queria recebê-los em comodato, sem custos… Nada de história, cultura ou antigomobilismo, mas apenas ´marketagem´ política barata. Neste caminho de insensibilidade, lamentei profundamente não ter tido êxito ao conduzir, junto à Presidência da República, sua generosa proposta, de ceder e conduzir um conversível antigo em uma das posses da má lembrada Presidente Dilma. Nas providências, alguém acometido de ataque de idiotia, considerou você de pouca segurança, condicionando aceitar, se a condução fosse por motorista do Palácio do Planalto. Situação impossível pela falta de intimidade e de tempo para treino. E o resultado foi trapalhada óbvia: abriram mão do automóvel impactante, histórico, conduzido por um dos últimos dos ícones do antigomobilismo e alugaram um muito alterado Ford 1929, dirigido pelo dono, pois o tal do motorista não conseguiu guiá-lo…

Há, evidentemente, muito mais, em especial pelo legado do exemplo de seriedade, confiabilidade e dedicação extremada ao tema, de seu jeito objetivo e prático para restauração e uso dos automóveis, pelo cultivar a história e contá-la com riqueza de detalhes a todos os interessados em beber em fonte tão privilegiada. Em suma, o pacote de características complementando sua imagem. Das muitas lembranças generosamente geradas por você, duas trazem-me especial registro: a férrea vontade em manter unidade da coleção, resistindo vendê-la ao todo ou em partes, apesar de todas as dificuldades externas sinalizando como a mais óbvia das soluções. A segunda foi de orgulho pessoal, e você se lembra do telefonema que lhe dei em março do ano passado no aeroporto de Orlando, Flórida. Relatei-lhe minha surpresa e alegria, contando a ida ao ´Amelia Island Concours d’Élegance´, em Jacksonville, ao chegar ao balcão da imigração o oficial perguntou o propósito da minha viagem. Expliquei-lhe que era assistir ao evento em Amelia. E ele, candida e surpreendentemente me indagou se eu conhecia “a certain Mr Possoli (?!), a famous brazilian cars collector.” Foi a glória no país do mensalão, da operação lava-jato, da descrença nos poderes da República, das dúvidas quanto ao futuro, da emigração: na terra do automóvel, um brasileiro limpo e ético era reconhecido! Soube da sua última notícia ao final de desafio a um 4×4 nas serras das Minas Gerais, chegando a sinal para comunicação, recebi da Vera, mulher do nosso enciclopédico Zé Luiz Vieira, sintética mensagem: – “Og se encantou hoje à tarde…” Ela usava conceito do escritor e diplomata Guimarães Rosa, que dizia que as pessoas não morrem, ficam encantadas. Durante sua vida de estelares conquistas profissionais e pessoais, da implantação do conceito do antigomobilismo, do convencer pessoas a aderir ao novo hobby, a localizar veículos e suas partes, contando histórias, descrevendo automóveis, implementando a ideia, encantou a todos. E ao final, coerente, encantou-se. Fique em paz, velho amigo. Roberto Nasser

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Jipe Lada pode ser paranaense >> AutoVAZ, a grande fabricante russa hoje controlada pela união Renault-Nissan-Mitsubishi, anunciou atualizar o Niva, o jipe Lada, neste ano comemorando 4 décadas. O brilhante projeto inicial, mesclando Fiats 124 e 127, foi revisto pela GM quando controlava a marca e, com assunção do controle pela líder francesa, novamente adequado aos métodos, processos e controles da Aliança. Resistente até em projeto, terá modificações totais, trocando plataforma e mecânica. Aparentemente uma nova carroceria sobre a base mecânica comum aos Renaults Logan, Sandero, Captur, Duster, Oroch, estes com opção de tração nas quatro rodas. Será fácil fazê-lo inspirado no Duster.

Projeção do futuro ´jipe´ Niva (Foto: divulgação)

Projeção do futuro ´jipe´ Niva (Foto: divulgação)

A possibilidade de produção no Brasil é grande. No Continente há demanda, mas inexiste produto para cumprir a função de jipe, mas apenas de utilitários esportivos com tração nas quatro rodas. Dado de factibilidade industrial ficou patente em conversa há 15 dias entre Olivier Murguet, presidente da Aliança para operações no continente sul, e alguns jornalistas. Perguntado sobre a possibilidade de ter a nova geração do pequeno hatch Twingo, foi claro ao declarar: produtos no Brasil apenas sobre a plataforma multiaplicada do Logan. É uma base para serviço jogo duro, desenvolvida na Romênia pela Dacia, submarca de subpreços da Renault, muito adequada às exigências das condições terceiro-mundistas do mercado nacional. Coisa para 2021, com a mesma aptidão, mas fugindo à simpática imagem de pequeno jipe.

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RODA-A-RODA

DE VOLTA – Marco profundo na história da Toyota no Brasil, picape e jipe Bandeirante podem voltar ao mercado, por importação ou produção na Argentina. O espírito, a resistência, são atributos da atual linha T70.

Toyota T 70: retorno possível ao Brasil (Foto: divulgação)

Toyota T 70: retorno possível ao Brasil (Foto: divulgação)

JOGO DURO – Parece um veículo do início dos anos ´90, incluindo a motorização diesel de formulação antiga, V8, DOHC, 4.5 litros, 200 cv e 50 kgf.m de torque. Projeto em análise.

MUDANÇA – Na Europa, Uber negocia com a Volvo aquisição de 24 mil (!) veículos com tecnologia autônoma. Inicia mudar o negócio, deixando de ser apenas gestão de aplicativo.

QUANDO – Inclui-se nas possibilidades de vir ao Brasil? Remotamente. Carro autônomo exige adequada infra-estrutura urbana. Quer dizer, participação na via de rolamento com faixas, placas, sinalização correta para ser lida pelo pacote de eletrônica dos veículos.

CONSTATAÇÃO – Com as estradas esburacadas, asfalto de quinta categoria, sinalização ausente ou deficiente, placas encobertas por matos urbanos, só teremos os autônomos depois de mudança conceitual: quando houver respeito ao pagador de impostos, verdadeiro dono do chamado ´dinheiro público´. (Os artigos e matérias assinados por colaboradores são de inteira responsabilidade dos seus autores. A editoria geral desse veículo, necessariamente, não concorda com as opiniões aqui expressas. Texto desta coluna: Roberto Nasser)

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